Acordei e o mundo estava impregnado de você. Pus minhas mãos estendidas ao alto dos olhos, reparando no peso de meus braços. A medida que o tempo passava, os músculos iam se caracterizando pela dor e a forma como ela avançava lembrava o mar. "Eu perdi" sussurro entre os lábios. Viro-me de lado, agarro-me ao travesseiro, encolho-me. Sou menor. O mundo inteiro diz em coro os nomes de minha menoridade, e dissonantes eles vão se repetindo. Silêncio. O mar desaparece no pequeno zumbido de uma caixa de som. Sou menor.
Eu perdi
Acordei e o mundo estava impregnado de você. Pus minhas mãos estendidas ao alto dos olhos, reparando no peso de meus braços. A medida que o tempo passava, os músculos iam se caracterizando pela dor e a forma como ela avançava lembrava o mar. "Eu perdi" sussurro entre os lábios. Viro-me de lado, agarro-me ao travesseiro, encolho-me. Sou menor. O mundo inteiro diz em coro os nomes de minha menoridade, e dissonantes eles vão se repetindo. Silêncio. O mar desaparece no pequeno zumbido de uma caixa de som. Sou menor.
o rapaz que revi me faz pensar
corpo triste e sem razão às faíscas do inominável. vejo o colarinho da abelha, peludo, perder o pólen para o vento. e vejo o homem sentado, cara enrugada, num assombro com algo... com sua própria conformação, perplexo com aquilo que o fez parar, que o fez esquecer ou se afastar. eu vi e revejo a fuligem, o prenúncio e a aurora, já irreversível, daquilo que ruira o sonho, que mudara completamente o destino, eu vejo o menino que ao pôr os pés na rua fugindo de um laço, se deu conta de que estava sozinho, e o que é estar só só ele soube. muleque triste e a abelha com pólen no colarinho perguntem-me: existe razão? muleque triste, chimpanzé muito reflexivo. vento que me faz olhar para o homem, um corpo de operário, e um brilho no olho, estou certa tinha, que não vi, perguntem-me: meu professor, com quem logo terei, tem razão? tem autoridade? e porque tudo isso me fez lembrar da casa antiga, da antiga casa, de meus avós? Onde o corpo de minha avó se contrapõe a minha vitalidade (eu digo: "pobre, naná") Foi ele, aquele rapaz que revi ontem? Foi ele que me fez lembrar? Daquilo que não tem, não tem nome. (e me fez pensar que já não tenho mais escrito, ou exercido qualquer fruição, que não tenho mais me perdido, nem pensado sobre aquilo que me faz estar ainda viva.)
sem dizer palavra
como o brilho de uma bola de vidro
como a corrida de cavalos num verão europeu
como um lago sob o pesado olhar de um pueril angustiado
faz emergir o som do tremor de algo por vir
uma marca como as digitais do dedo
algo quer nascer,
mas
o fim
prenuncia-se todos os dias
quando vou dormir
sinto medo de não mais acordar
e medo desta corredeira de imagens
que me engole
mas me cubro com ela
pois não há no mundo
nada que me salve de minha loucura
todos os dias eu esqueço
quem eu fui
o que eu senti
esqueço dos outros
principalmente, eu esqueço dos outros.
e o fim me engole.
com uma gota de fala: "é só."
pois um homem
um homem vem e me mata
de uma forma tão injusta e cruel!
: morro sem dizer
palavra.
verdade e essência
o mundo inteiro direciona e sugestiona o tempo todo o seu olhar, seus sentimentos. e mesmo aquilo que você mais odeia ele pode te fazer desejar. vou aprendendo a ter um extremo cuidado com tudo isso, percebo essa sensibilidade e delicadamente irei desconstruir cada palavra pra que no final reste apenas aquilo que é verdadeiro.
sabedoria e loucura
a pior sensação que existe é ouvir que estou viajando quando aquilo que acabo de dizer saiu por mim com a força da verdade e do desejo.
Algo realmente bom
Quando você ouvir algo bom, realmente bom, grave essa sensação onde puder. Na vira da gola, na borda da folha ou do quadro, na palma da mão, no sutiã, no cós da calça, na meia ou no sapato. Buscando as coisas boas, você vai ouvir algo realmente bom de novo. E então sinta a delícia de poder agora escutar e reescutar aquilo que você comprovou realmente bom!
Retorno em duas partes, invisível e acidental.
1/2 reafirmo-me em cada letra, em cada espaço minha fala dilata. ainda parece haver algo de secreto, de íntimo, quando toda carniça já está exposta. pois a fala foge pra dentro de mim. e vejo quanto é forte a invisibilidade, quanto são anônimas as coisas íntimas, mesmo quando largadas fora de casa. tudo é breve e o agora infinito. tanto que é preciso um cano bem fino pra me furar e chupar de mim apenas aquilo que é bom. pra que fique infinito condensar neste instante, torná-lo meu minúsculo, privado e anônimo eu.
1 e ao mesmo tempo eu sinto tudo se esvoaçando, tudo frágil e vulnerável neste anonimato exposto. vulnerável unha sem cúticula, meu cabelo embaraçado. vitrine que ninguém observa, feixe de existência que não pertence a idéia alguma. vulneráveis olhos que te acharam, vulneráveis palavras que você escuta de mim. tudo é frágil e a fragilidade é forte como os olhos de uma criança. e a fragilidade orgânica e forte, me convoca a viver essa pequena e insistente dor.
1 e 1/2 qual é sua religião? em quê você acredita? todos os sistemas de pensamento encontrados em mim já foram pensados antes por outros homens. toda a história que eu vivi já foi vivida antes. então, o que é acreditar? reafirmar tudo aquilo que foi dito antes em nome da "verdade"? ou em nome de uma forma própria? quando o sol esquenta a sua pele não há sentido nisso. Se se está vivo, não há em que acreditar ou pelo que esperar. Tudo aquilo que se pensa e vive já se pensou e viveu antes por outros homens, por isso é real, porque é compartilhado. Não há o que selecionar naquilo que é vivo, está tudo certo, é tudo verdade, tudo acontecendo. E é imprescindível sentir o momento, o músculo, o movimento, pra que se entenda que nada está errado, é tudo potente, tudo latente.
2 E por isso mesmo... eu deva acrescentar um "mas": Mas ao mesmo tempo, em que tudo já foi vivido e pensando, tudo está ainda por se inventar. A mesa de vocês já está posta, as cadeiras, por exemplo, combinando com a cor da toalha. Mas eu me sento como uma incidental visitante. As coisas se apresentam, ditas ou não ditas, com todo o amor, toda a admiração, e todo contíguo ódio, toda contígua ira daquilo que percorre, daquilo que está. E é nessa fúria que as coisas já vividas anseiam uma amplificação e uma reorganização, desejam também novos corpos, novos espaços, fugir, se esquecerem de si mesmas. lembrarem-se como outras. rubra sensação, contraditória sensação de amar.
Ah o corpo,
elite athlete - simone doesn't feel like dying from João de Almeida on Vimeo.
a dança, o langor, ah os músculos ora tesos, ora relaxados. Quem dera eu vivesse da arte de observar o corpo e seu pensar sobre si mesmo na construção das fantasias e do horror, da sensibilidade e do alívio... ah o corpo! Subtrai do céu o azul, expele-o no riso, contraindo a asa que o braço não tem ou perdeu, subtrai do sabão o odor, expele-o na água que lava a roupa... na fala, no andar, no olhar expele-o, um, um com o outro, entre e sobre. mas o corpo é a mente e a mente é o corpo. carinhosamente um guarda ao outro, como os irmãos gêmeos que se deitam abraçados na mesma cela sonhando juntos a fuga do dia seguinte.
me coSmovo
contínua e fresca
na estrada contínua e estreita
uma névoa vaga
gasosa e esparsa. jato
de esperma azul-
lasso.
luzes se embolam
corre
rio
leitoso:
me co[s]movo.
falta
falta chão
falta
falta ______
(chão/mão)
gravidez
2) A cor amarela
1
há traços na língua
de uma serra elétrica
e meu gozo tem sido um choro
um sopro entre as pernas
e também bezerros
tenho tido entre as pernas
encapados de sangue denso expelidos
como nunvens algodão
me olhando angélicos
austeros
são estes homens grandes
que fiz
na mente nada de mim
entre nós, entretanto, percebem
a cor amarela
2
vamos rindo diante um do outro
e do riso descola-se uma fumaça.
corrijo-me, a fumaça é evento anterior
vem de trás das paredes, do ralo da pia,
vem dos passos que aquela moça dá
e quando rimos, vem entre nós
aparece entre os beiços grandes,
ou mesmo pequeniníssimos,
deliciosos de morder,
- fico olhando pras pessoas
e os beiços. tenho notado são
o lugar mais de se estranhar numa forma
humana os beiços interrompem toda a lógica do rosto são uma outra pele na pele de antes só pra anunciar uma cratera onde se forma a língua -
chega em mim, é a cor
da minha remela. é meu sono
já se esfregando na vida,
real vida. e em toda a merda
da vida que eu amo.
e do nada, que era toda a nossa pele
que eu não pude esquecer, bate
em mim ela
- da lata de óleo liza vaso de flor
margarida breja copo lagoinha
anemia nos olhos de cassandra que a gente
acabou de ver leva ela pro médico
antes de morrer. da bolha de sabão
dos doidão refletindo a tarde em que você pediu namora
comigo com mundos de nuvens no céu retendo cá baixo
o amarelo.
e eu... infeliz respondi que sim.
MAS NÃO É NADA DISSO A COR amarela
é um líquido que se derrete nos olhos. Na grande ocular, na córnea, o mundo, sintetizado em pixels de luz úmidos... só pra dizer que eu preciso de espaço pra amar.
gravidez
1)um retardamento no flash
Um avião atravessa o céu
E um avião voa em mim
com suas turbinas barulhentas
como se a atmosfera eu tivesse absorvido
e o mundo inteiro se aninha em mim
entre meus sedimentos, águas e organelas
- pequenas cidades -
estou próxima
ouço os cochichos
incho-me, minhas rugas secas se hidratam
estupenda agora, rios e córregos me atravessam
um flash demora em disparar
um segundo gordo
absorve os séculos
é o tempo dos meus sonhos
meus olhos gotejam
segundos gordos
- como me tornei esta que sou agora?
capaz de ver seu início e fim, e sobretudo
atravessada por seu ser e não ser -
e vai se desprendendo de mim
a pedraria rica:
aqui está o que me pertence... uma floresta
úmida um vento
aquilo que de fato me pertence.
as cortinas inspiram todo o ar
da tarde. estão grávidas
e o feto que gestam
é tudo que me pertence
Um avião atravessa o céu
E um avião voa em mim
com suas turbinas barulhentas
como se a atmosfera eu tivesse absorvido
e o mundo inteiro se aninha em mim
entre meus sedimentos, águas e organelas
- pequenas cidades -
estou próxima
ouço os cochichos
incho-me, minhas rugas secas se hidratam
estupenda agora, rios e córregos me atravessam
um flash demora em disparar
um segundo gordo
absorve os séculos
é o tempo dos meus sonhos
meus olhos gotejam
segundos gordos
- como me tornei esta que sou agora?
capaz de ver seu início e fim, e sobretudo
atravessada por seu ser e não ser -
e vai se desprendendo de mim
a pedraria rica:
aqui está o que me pertence... uma floresta
úmida um vento
aquilo que de fato me pertence.
as cortinas inspiram todo o ar
da tarde. estão grávidas
e o feto que gestam
é tudo que me pertence
algo que dure
vamos nos intensificando uma mão sobre a outra conquistando espaços três novos amigos talvez estejam confundindo a nossa visão, mas não nos desesperamos ainda lembramos o exato cheiro, o mercado municipal, do nosso primeiro último beijo nos enroscamos ainda na roupa um do outro facilmente perderemos já, já o pudor entre sorrisos um som violeta, algo que dure uma eternidade, é preciso acreditar... em algo que dure uma eternidade pra depois não ficar chorando por aí... sem ninguém... é preciso acreditar em um corpo que possa ser tocado profunda, violenta e carinhosamente em larga e curiosa e deliciosa extensão, a qualquer momento que for preciso ter em alguém o seu próprio verbo ecoando... a qualquer momento da vida que se queira receber um sim ou desesperadamente seja necessário fazer sangrar uns lábios em flor ou receber duro não e ai, que o boi deve dar a volta, caminhar de mansinho se achegando na pele de seu amor pra encontrar novas aberturas... eu aqui, vou cravar-me aqui até que seu corpo se abra em feridas, ou braços estendidos ai, ai, o que que a gente tem feito do amor?
da flor de sangue
a boca de meu pai
balança choca
diante da menina que estreia
o sangramento passando a mão
no sangue, meu pai passa a mão
nos lábios, limpa a saliva,
a baba
a flor de sangue aberta,
e ela não deseja a casa sagrada,
deseja a casa acolhedora
e divertida das criadas
onde o sangue se esparrama
num vasilhame d'água
nas mãos e nos
punhos da mulher
que calcinhas lava
balança choca
diante da menina que estreia
o sangramento passando a mão
no sangue, meu pai passa a mão
nos lábios, limpa a saliva,
a baba
a flor de sangue aberta,
e ela não deseja a casa sagrada,
deseja a casa acolhedora
e divertida das criadas
onde o sangue se esparrama
num vasilhame d'água
nas mãos e nos
punhos da mulher
que calcinhas lava
Piquenique, um lanche vagabundo.
dedicado a Danúbia Gardenia
Quando eles caíram na grama. Algumas partes caíram como folhas... e outras caíram como chumbo.
As escamas, os rios, o vento, a copa das árvores. E a copa das árvores e a zoeira das cigarras... rendas no fio das mãos que se desfia nas nuvens, no metal do sol. Alianças livres como bolhas de sabão, grama arrebentada e fresca. Estamos aqui há um tempo... esperando nossos amigos chegarem. E que tragam coisas boas para encher o buxo! Queremos dividir signos, corpos, comidas, palavras. Os imagino enchendo a toalha de doces enfeitados... biscoitos caseiros, sanduíches decorados, frutas limpas, um suco colorido... Aliás você tem uma pinta de que gosto, é aqui. Quando deita o seu decote se abre um pouco mais e dá pra sacar... Eu tenho uma pinta também... que nada tem a ver com a sua. Ela é pequeninha, fica aqui. (mas os espero também não chegar.)
para uma vida selvagem
imagino-me com as roupas crescendo do alto do pescoço até os pés. acariciando o corpo chamegosas. e não é como guardar-me das vistas, mas ressaltar-me em minha resistência. sem armadura, mas protegida organicamente - é uma extensão de mim que move-se junto ao meu corpo. imagino-me. em segredo e calma. com as flores do vestido a roçar a pele. todas as flores da pele, do corpo abrindo-se, sobrepondo pele em pele. imagino-me tão bem embalada e a lua. a lua e a leoa. seus olhos e seus pêlos. vultuosos como nuvem.
você fica me dizendo coisas tão bonitas...
e uma massa de leite espuma entre os velcros da minha pele - já viste? são como cristais macios se multiplicando. o frio que fazia se afastando: rente a raiz de cada pêlo o sol se erguendo: há lava dentro de mim, onde um laser mira a explosão lenta desta primavera.
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